Depoimento de Jota Jota

A exatos 60 anos, eu ainda morando na cidade de Ituverava, interior do estado de São Paulo, com apenas 10 anos, era o contra mão das torcidas, no casarão da Praça X de Março, meu pai Zé Galo, meu Irmão Zé Antônio, eram torcedores do São Paulo, Zé Antonim e Zé Nagibe, Corintianos, e eu Santista, claro o Santos tinha PELÉ. No alto dos meus 10 anos, e em uma ELETROLA TELEFUNKEM, aquela do móvel bem grande, onde os rádios tinham inúmeras faixa, sentei-me no chão, e comecei a buscar uma emissora, para ouvir Santos e Bahia, direto de Salvador. (eu nem sabia onde ficava).

Pronto achei, e a rádio em 79 metros, tinha o nome de RÁDIO SOCIEDADE DA BAHIA”, aos poucos, ouvindo-a, fui me entusiasmando, principalmente quando entrava o prefixo “SOCIEDADE DA BAHIA, O SOM DA BAHIA, QUE O BRASIL INTEIRO CONHECE”, gritei minha mãe, Dona Durvalina, que na cozinha com minha madrinha Nena, faziam o tradicional arroz doce, ou de leite como se chama na Bahia. Vieram as duas correndo de vez, pensando que havia acontecido algo de grave.

Foi então, segundo elas, que com os olhos brilhando, eu disse, vou trabalhar nesta Rádio, e Dorva, assim todos da família Soares Oliveira a tratavam, disse, você nem sabe onde fica a Bahia minuuuu. Voltaram para os seus afazeres, e eu continuei maravilhado pela rádio. Mas ao fim da transmissão, a alegria de ter descoberto a Sociedade, veio a tristeza, o Bahia vencera o Santos de Pelé, pasmem, o meu Santos, perdeu para o Bahia de Florisvaldo, que “baita” jogador.

É o tempo passou, fui goleiro da Ituveravense, fui estudar em Jabotical, e lá joguei no Jaboticabal Atlético, nas seleções de Campo e Futebol de Salão(não era Futsal) do Colégio Agrícola, gostava muito de cantar, e tornei-me a mais bela voz colegial do interior, Festival em Bebedouro-SP, daí fui “crooner” da orquestra Sul América de Jaboticabal por dois anos, e a vida artística, falou mais alto. Da orquestra fui para o rádio esportivo em Ribeirão Preto, onde NELSON ANTONIO GONÇALVES, o NAG (in memorian), me ensinou tudo e mais um pouco, iniciei ao lado de José Luiz Datena, Márcio Bernardes, Jorge Cajuru e tantos outros.

Passei por várias emissoras no país, mas em 1982, ainda em Brasília, onde conheci Edmundo de Carvalho, trabalhamos juntos na Rádio Nacional de Brasília, fiz uma ligação para Bahia, e na Rádio Sociedade, aquela mesma do jogo do Santos, do outro lado da linha, me atende um camarada com sotaque de gaúcho, era o narrador MARIO LIMA, (hoje um dos melhores e maiores amigos que o fantástico mundo da bola me deu), que me disse, o cara, estou voltando para o Sul, e a rádio vai precisar de um narrador, e falou de mim para Alfredo Raimundo.

Arrumei os panos de B…, em Brasília, e vim para Salvador, a profecia do menino de 10 anos, estava se realizando, e com todo orgulho do mundo, comuniquei a minha família, já estou em Salvador, naquela rádio que um dia lhes falei. Aqui cheguei pela manhã, foram me buscar no aeroporto, e passei o dia conversando com a direção da Rádio, à noite, enquanto jantávamos, veio em edição extraordinária, a notícia do falecimento de Clériston Andrade, candidato à governador do Estado da Bahia.

No dia seguinte, o moço que viera para o departamento de esportes, vendo a aflição do diretor, pela falta de repórter para estar no cemitério, todos estavam viajando cobrindo jogos, então me ofereci para ajuda-lo, e veio a pergunta, você chegou ontem, como vai saber o que dizer, a resposta foi imediata, já li todos os jornais, que trouxeram fatos sobre o falecido. Na mesma hora, Florisvaldo Nascimento, me deu um BTP (microfone sem fio da época) e lá fomos nós, eu e Antônio Tillemont para o Campo Santo, cobrir o sepultamento de Clériston Andrade, ao lado de Edmundo de Carvalho, que já vinha acompanhando o cortejo. Reencontrei Edmundo naquele dia, e olhem que eu nem estava contratado.

Ao final da cobertura, fui chamado na sala de Alfredo, no outro dia, estava empregado na Rádio Sociedade da Bahia, “O SOM DA BAHIA, QUE O BRASIL INTEIRO CONHECE”.

Minha história na Bahia, tem duas marcas com o ESPORTE CLUBE BAHIA, esta foi a primeira, onde perdi o campeonato com o Santos, mas a profecia se cumpriu, depois de alguns anos, a outra, já fora da Sociedade, mas na Band FM, sob o comando de Juarez Oliveira (in memorian), um baita de um profissional, fui destacado para narrar Inter e Bahia no Beira Rio, Bahia BI CAMPEÃO (tem vídeo meu no youtube, aparecendo no Globo Esporte, Bahia campeão).

Acabei me tornando filho desta terra, sem a necessidade de ser sido agraciado, com nenhum dos títulos que se conferem às pessoas, porque o maior de todos eles, é o de reconhecimento de todas as torcidas, o da dupla BA VI, e de todos os times do interior do estado, que vem acompanho de respeito e credibilidade, pelo trabalho que ainda realizo na BAHIA DE TODOS OS SANTOS.

Este depoimento, saiu espontaneamente na manhã deste 29 de março, data em que comemora o aniversário de 471 anos de Salvador, ao receber no zap, o banner de comemoração dos 60 do primeiro título brasileiro do tricolor, enviado pela ASCOM-BA.

Salvador, 29 de março de 2020

JOSÉ GEORGIDES DA SILVA (JOTA JOTA)