Por Carlos Humberto

Após os escândalos do Fifagate, que alcançaram João Havelange, Ricardo Teixeira José Maria Marin e Marco Polo Del Nero em 2015, a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) volta a conviver com denúncias envolvendo o seu principal dirigente, o presidente Rogério Caboclo, no posto desde 2019, cujo mandato se expira em 2023.

As denúncias de uma funcionária cerimonialista da entidade, que acusam o presidente de assédio moral e sexual, caíram como uma bomba no colo da entidade que comanda o futebol brasileiro, respigam perigosamente na Seleção Brasileira, e comprometem a realização intempestiva da Copa América no Brasil, após renúncias de Colômbia e Argentina, países originalmente escolhidos como sedes para o referido evento esportivo.

Os primeiros sinais da insatisfação partiram de setores da mídia, que repercutiram a preocupação de autoridades sanitárias mundiais no tocante ao perigo de realizar um evento desse porte, quando as taxas de contaminação aumentam a cada dia no continente, com a chegada da chamada terceira onda.

Historicamente avessos a manifestações que contrariem os patrões, os jogadores e comissão técnica pediram para serem ouvidos, e externaram sua contrariedade em participar de um evento que não foram consultados. Particularmente, cobram uma resposta do presidente às sérias acusações e se negam a participar do movimento político que se tornou o torneio de futebol.

A preocupação se estende aos patrocinadores da seleção brasileira, entre eles a Nike, que veste as equipes, e o Banco Itaú, talvez os dois maiores, que exigem uma criteriosa apuração das denúncias. Em véspera de mais uma Copa do Mundo, um eventual boicote dessas empresas seria uma sangria incalculável nos cofres da milionária entidade.

O diretor de Governança e Conformidade da CBF, André Mengale, encaminhou ofício ao presidente, recomendando um pedido de licença do cargo por tempo determinado, e assim poder produzir sua defesa.

Caboclo resiste. Sua defesa nega as denúncias e promete provar a inocência do dirigente. Dentro do corpo de dirigentes esportivos, muitas divergências. Enquanto diretores da CBF próximos ao presidente aconselham um pedido de licença temporária – ideia apoiada por Ricardo Teixeira, ex-manda chuva do futebol brasileiro – presidentes de federações estaduais mantém cautela. Alguns evitam se expor nesse momento sensível e perigoso politicamente. Outros, como o presidente da Federação Pernambucana, Evandro Carvalho, minimizam a situação ao afirmar que “Qualquer estudante de direito derruba isso em meia hora” – opina o descrédito cartola.

Na reunião por teleconferência realizada pela Conmebol, boicotada pelos dez capitães das seleções nacionais, os cartolas revelaram a resistência interna que sofrem em seus países para virem ao Brasil. Em curta participação, o presidente Jair Bolsonaro assegurou o apoio do seu governo para abrigar a Copa América. Quanto a participação do país sede, rumores vindos de Brasília revelam que já existe pressão para que, em caso da desistência dos jogadores e do técnico Tite em disputar a copa, a CBF convoque novo treinador e novos jogadores para representar o país.

Mais uma vez, o espectro da intervenção governamental no futebol brasileiro volta à baila, ressuscitando esqueletos dos anos de chumbo de um passado não muito distante e de triste memória.

De repente, o futebol sai das quatro linhas para ser debatido em gabinetes da política nacional. É mais uma mancha que tenta macular a história do futebol pentacampeão mundial. Lamentável.

Oficio CBF André Megale