‘Se pararmos, vai ficar lotado de corpos’ – dizem trabalhadores

BBC News

Familiares de vítimas da covid-19, a doença causada pelo novo coronavírus, têm sofrido com velórios rápidos e caixões fechados — sem a possibilidade de se despedir dos parentes.

Do outro lado dessa história, porém, estão os trabalhadores de serviços funerários, eles próprios sofrendo com a pandemia, afetados pela falta de equipamento de proteção e pela subnotificação das mortes por covid-19.

A BBC News Brasil ouviu relatos de trabalhadores que tiveram que manusear ou preparar corpos sem equipamento de proteção individual necessário ou sem saber se a morte havia se dado por covid-19.

Roberta trabalha em uma funerária no interior do Estado de São Paulo. Ela pratica a tanatopraxia, a preparação de um cadáver para velórios. Seu nome verdadeiro foi modificado para proteger sua identidade.

Ela conta que preparou dois corpos cujos motivos declarados para óbito eram “insuficiência respiratória”, com uma observação que dizia “aguardando exames”. “Como não dizia ‘covid-19’ e a família queria, fiz a preparação”, conta. Ela estava sem o material de proteção adequado. “Se não está escrito na declaração de óbito, como é que vamos chegar na família e falar que não vamos fazer?”

Segundo ela, o velório foi a céu aberto e com aglomeração de familiares. Mais tarde, ela soube que a pessoa havia morrido por causa de covid-19.

Agora, Roberta está afastada do trabalho porque fez um exame cujo resultado deu positivo para coronavírus. Deixou de ajudar a mãe idosa, que precisa dela. Não há comprovação de que tenha sido infectada no trabalho, e especialistas divergem sobre o contágio por cadávares.

Em um hospital particular de São Paulo, na semana passada, um motorista de um serviço funerário foi buscar um corpo, relata um funcionário da categoria. A declaração de óbito dizia “causa indefinida”, mas, chegando lá, o cadáver estava dentro de um saco, o que não é praxe.

Enfermeiras disseram ao motorista que, na realidade, a causa da morte havia sido covid-19, e não souberam explicar por que isso não constava na declaração de óbito. Ele não estava com o equipamento de proteção adequado.

Em uma funerária da região do ABC, na Grande São Paulo, um agente funerário conta como servidores do próprio IML (Instituto Médico Legal) e do SVO (Serviço de Verificação de Óbitos) têm avisado que mortes por “broncopneumonia”, “pneumonia bilateral”, entre outros, podem ter sido decorrência de covid-19, sem que testes tenham sido feito. Por isso, trabalhadores da funerária onde trabalha decidiram por conta própria usar equipamento de proteção que usariam para casos de covid-19.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) recomendou como principal estratégia de combate ao coronavírus medidas de prevenção e a massiva realização de testes para identificar os infectados. O gargalo de testes que o Brasil tem enfrentado, além de afetar no combate ao avanço da doença, impacta o trabalho das pessoas na linha de frente, pois acabam tendo de manusear cadáveres sem saber se a causa da morte foi covid-19.