O desporto é um coração rabiscado

Paulo Leandro, jornalista

O incentivo à criação e ao fortalecimento de clubes do interior baiano, preferencialmente em municípios de forte potencial econômico, foi um dos planos bem-sucedidos da gestão do presidente da Federação, Virgílio Elísio da Costa Neto.

Corria o ano de 1996, um pouco mais um pouco menos, quando surgiu a proposta de profissionalização de um clube de Juazeiro, um dos municípios mais importantes da Bahia, por sua história e recente produção agrícola baseada na fruticultura.

Acompanhei bem de perto todo o trâmite, torcendo para dar certo, e provavelmente tenha sido o primeiro jornalista a redigir um texto para distribuição com a imprensa sobre o Juazeiro Social Clube, devido à minha condição de assessor de imprensa da FBF naqueles meados de anos 1990.

Precisava o Vale do São Francisco ser representado no Campeonato Baiano e para alcançar esta meta, não hesitaram o alto comando da FBF e os desportistas de Juazeiro.

Acostumado à lida com os donos do poder dentro do futebol, e seus bons parceiros de negócios, surpreendeu-me a defesa dos ideários desportivos por parte de clubes amadores de Juazeiro, salvo engano, o Barro Vermelho e o Olaria, entre outros.

O dirigente Carlos Humberto, hoje colega cronista, mostrava aspectos de um comportamento distante do cartola convencional e, logo, ao editar a já extinta Gazeta Mercantil, na virada do século, procurei dar ampla visibilidade aos métodos de gestão até hoje raros pois tinham como base de sustentação a prudência, a coragem, o conhecimento e o senso de justiça.

O resultado da polinização do futebol, por parte da estratégia da FBF, no município, veio com a criação do Juazeiro Social Clube, anexado da delicadeza e da sensibilidade do desenho de um emblema no qual se vê um coração rabiscado – e dentro dele uma bola.

O símbolo é capaz de atrair, não apenas os românticos amantes do futebol – não há futebol sem amor -, mas todo ser percipiente capaz de julgar a partir de uma experiência estética.

Trata-se do valor do coração, representando o amor, com o detalhe do rabisco, sinalizando sua imperfeição. Um distintivo suficientemente atrativo para convidar a um bom debate sobre o que é o amor alguns dos principais pensadores e mesmo quem exercita o livre-pensar no cotidiano.

Já editor de esporte do jornal A Tarde, no início deste século, tive a honra de ganhar minha primeira camisa do Juazeiro Social Clube, e justamente a vermelha, minha primeira cor.

Por algum motivo, sem poder ser leviano em acusar, coincidiram algumas obras de reforma do meu apartamento com o sumiço da camisa a qual tinha criado afeição pelos símbolos ali representados. Ainda espero, um dia, recuperá-la!

Uma aluna querida presenteou-me com uma versão branca da camisa do Juazeiro e, recentemente, ganhei uma, de manga comprida, verde, a qual usarei, com muito orgulho e a certeza de representar, ali, um projeto feito de boa vontade e intenção tendo como uma das lideranças a boa pessoa chamada Carlos Humberto.

Em 2014, reencontrei o dirigente e cartola, agora na condição de aluno de um minicurso sobre futebol, para alunos de jornalismo, oferecido pela Universidade Estadual da Bahia (Uneb), por ocasião da Copa realizada no Brasil.

Esperamos a volta do Juazeiro, cuja opção por nomear-se social, acresce a sensação de estarmos diante de um fenômeno ímpar, cujas dificuldades de afirmação atual servem para atestar a rejeição às virtudes, quando interesses sigilosos comandam as ações.

Parabéns aos amigos juazeirenses e a todos os desportistas baianos defensores da pluralidade como forma de desenvolvimento do nosso futebol, em vez do monoclubismo capaz de fortalecer apenas um – e mesmo assim, apenas para as disputas domésticas.

Paulo Leandro