Por Carlos Humberto e Tony Martins

A Agência CH entrevistou o ex-treinador da Juazeirense Carlos Rabelo, que pediu demissão do cargo logo após a eliminação da equipe na Série D do Campeonato Brasileiro diante do Atlético Cearense. Ele destaca que sua última passagem pelo clube foi positiva com 60% de aproveitamento, considerando, inclusive, o bom desempenho na Copa do Brasil, apesar da desclassificação na Série D.

Rabelo isentou o elenco e a diretoria da Juazeirense pela eliminação precoce, já que o objetivo era o acesso à Série C. Contudo, foi enfático na sua avaliação em relação a falta de estrutura do clube que, segundo ele, é determinante para a falta de conquistas dentro de campo. Entre tantas coisas, Rabelo destacou a falta do centro de treinamento, a falta de um Departamento Médico e, principalmente, o pouco investimento nas divisões de base.

Por fim, o treinador revelou o seu plano de concluir a licença de Treinador A, promovido pela CBF, para depois seguir sua carreira em outros espaços.

Segue na íntegra a entrevista de Carlos Rabelo cedida à Agência CH.

Agência CH – Que balanço você faz dessa passagem pela Juazeirense?

Carlos RabeloEu vejo uma passagem muito positiva, muito boa, e os números não enganam. Nesse tempo são 60% de aproveitamento. Isso, dentro de futebol de hoje, são números muito altos. Os números dizem por si que a passagem foi boa. É lógico que a gente não queria terminar dessa forma, sendo eliminado no primeiro mata-mata. Nós queríamos ir até o último para brigar pelo acesso à Série C, mas futebol, infelizmente nos causa surpresa, como aconteceu com vários times que fizeram belas campanhas da primeira fase e foram eliminados, a exemplo do Castanhal, Brasiliense, Cascavel e Santo André. Então, infelizmente, futebol quando vai para o mata-mata é o dia e a hora que você tem que estar bem, para que você possa errar o menos possível.

Agência CH – Este ano o time chegou nos momentos decisivos do campeonato baiano e da série D sempre à frente dos concorrentes e foi eliminado nas duas competições. Na sua opinião, o que aconteceu?

Carlos Rabelo Nesses dois campeonatos que a Juazeirense acabou eliminado, tanto no Baiano, na semifinal, e agora na Série D, posso dizer que as competições foram semelhantes a nível de eliminação. O time fez um belo Campeonato Baiano e acabou sendo eliminado em dois jogos pelo Atlético de Alagoinhas. Eu não estava presente naquela competição, porém eu acho que primeiro jogo lá em Alagoinhas foi determinante. Perdeu de 2 a 1, ganhou aqui por 1 a 0, e foi para os pênaltis e nos pênaltis aconteceu mesma coisa que aconteceu agora contra Atlético Cearense. Então acho que são competições que faltou um pouquinho mais de atenção nesses jogos. Principalmente no jogo que eu dirigi, eu era o comandante da Juazeirense na Série D. O jogo em casa faltou um pouquinho mais de eficiência. Nós tivemos chance, tivemos um pênalti a favor, não conseguimos converter em gol, e quando se vai para os pênaltis você perde o controle. Pênalti não é sorte, pênalti é competência e a gente não foi competente. Acho que faltou um pouco mais de equilíbrio, tanto no Baiano, para você ir à final, como agora da série D para passar de fase.

Agência CH – A cada temporada a Juazeirense se consolida no cenário estadual. O que falta para o time se transformar num clube autossustentável e ganhador de títulos?

Carlos Rabelo Na minha opinião, a Juazeirense já se consolidou no futebol da Bahia, e vem buscando espaço no futebol nacional a cada ano. Quando subiu em 2017 para a Série C era um time desconhecido a nível nacional e todo mundo acabou conhecendo. Agora com essa campanha na Copa do Brasil, foi um fato predominante, daí firmou ainda mais o nome da Juazeirense. Mas, para que possa crescer mais, ela possa ter fluídos, ter rendimentos com títulos, notoriedade etc. A Juazeirense precisa crescer fora do campo também. Não é só pagar em dia que se conquista títulos. Ou só contratar jogadores, isso é um fato. Mas tem outros fatos, várias somatórias que faz um clube de futebol profissional. Eu entendo que a Juazeirense hoje é um time de futebol. A Juazeirense precisa virar um clube profissional de futebol e para isso precisa ter gestão. E é isso que eu sempre falo. Tendo gestão, a Juazeirense vai crescer fora do campo. Ela precisa se estruturar mais fora do campo, com coisas mínimas né? Coisas que são básicas para o futebol. Cito três exemplos: a Juazeirense não tem uma academia, vive em função de empréstimo de academias de terceiros; não tem um departamento médico consolidado dentro do clube, que é isso que é o correto; não tem um campo de treinamento e tudo isso tem que ser levado em consideração para que possa crescer. E vou repetir. Só pagar em dia, isso não basta. Precisa crescer fora do campo. Com essa somatória de detalhes, vai se transformar e crescer ainda mais.

Agência CH – É fato que a Juazeirense ainda patina no tocante às divisões de base. Na sua opinião, no médio prazo, não seria mais proveitoso apostar na garotada ao invés de formar elencos com jogadores de idade avançada a cada temporada?

Carlos Rabelo Categoria de base é fundamental. É fundamental, e é necessário que tenha. O celeiro de jogadores é muito grande aqui na Bahia, em especial o celeiro da região de Juazeiro. Muitos garotos que estão aqui que vão embora a gente nem sabe que é da região ou até mesmo de Juazeiro. A gente fica sabendo futuramente, ah fulano é de Juazeiro e ele nem passou por aqui, então tem que ser mais explorado. A Juazeirense já iniciou um trabalho esse ano na base, deu até frutos né? Mas tem que ser muito mais explorado, isso não pode ser abandonado, isso não pode ser só visto como uma obrigação, obrigação de ter um sub 20 ou um sub 17. Tem que ser visto como lado profissional. Como algo que vai render frutos para o clube, que lá na frente o clube vai ter uma recompensa não só financeira, mas também uma recompensa com a revelação de bons jogadores, flutuando entre a base e o profissional. Jogadores serão resgatados da base para jogar no profissional. Isso acaba evitando um monte de contratações erradas que se faz não só na Juazeirense, mas em qualquer clube que não valoriza categorias de base.

Agência CH – Quais os planos do técnico Carlos Rabelo para o futuro?

Carlos Rabelo Entre os planos imediatos estão encerrar a licença A, que eu iniciei o ano passado, mas devido à pandemia, teve uma paralisação. Existiu as aulas online onde eu fiz a primeira fase, que é a primeira parte do curso, e agora tem as aulas presenciais só no Rio de Janeiro. Então, vou terminar isso agora para que possa completar mais um ciclo. Depois, buscar outro espaço, outro clube, onde possa ter outra oportunidade. E continuar trabalhando nessa nossa profissão.