Seleção Brasileira: Estrangeiros e brasileiros

Por Tony Martins

Uma grande televisão brasileira vai reprisar no dia 12 de abril, próximo domingo de Páscoa, a grande final da Copa do Mundo de 2002 entre Brasil e Alemanha, disputada no Japão/Coreia. Isso fez-me refletir sobre a história da seleção brasileira, seus feitos marcantes e o momento atual, considerando a globalização como um dos principais aspectos que incidem sobre o futebol mundial e, por consequência, no futebol brasileiro.

A história vem desde 1930, sob o comando técnico de Píndaro de Carvalho Rodrigues no Uruguai, quando o Brasil perdeu de 2 x 1 para a Iugoslávia, no dia 14 de julho, tendo como expressão o jogador Preguinho que, inclusive, marcou o gol brasileiro aos 27 minutos do segundo tempo, sendo também o primeiro da história do escrete canarinho. Foi nessa copa que o Brasil conquistou a sua primeira vitória, fato ocorrido no dia 20 de julho, quando a seleção nacional aplicou 4 x 0 sobre a Bolívia.

Vale a pena lembrar a presença de Pedroza, goleiro do Botafogo do Rio de Janeiro, e que defendeu a seleção Brasileira na Copa do Mundo de 1934. Depois se tornou dirigente, chegando a ser Presidente da Federação Paulista de Futebol. A grande lembrança desse jogador está marcada em uma das mais importantes competições do Brasil, o Torneio Roberto Gomes Pedroza, o Robertão, disputado pelos maiores clubes do país, na década de 1960, equivalente ao atual Campeonato brasileiro.

Nas copas de 1934/38, surgiu o fenômeno Leônidas da Silva que em 37 partidas disputadas pela seleção brasileira, marcou 37 gols, 9 dos quais em duas copas do mundo, tendo a honra de ser o artilheiro da competição realizada na França em 1938, marcando 7 gols. Foi pela genialidade de Leônidas da Silva que o Brasil viu pela primeira vez um lance de rara beleza plástica, com movimentos acrobáticos, sendo executado por ele, a chamada “bicicleta”, fato ocorrido no dia 24 de abril de 1932 durante a partida Bonsucesso 5 x 2 Carioca, na cidade do Rio de Janeiro. Muitos atribuem a ele essa invenção, no entanto, essa jogada conhecida como “Chilena” em países de língua espanhola foi executada pela primeira vez em 1914 pelo jogador do Chile de nome Ramon Unzaga em 1914.

Seleção Brasileira 1950 (Foto: Arquivo)

Grandes jogadores passaram pela seleção brasileira: Domingos da Guia, Zizinho, Jair da Rosa Pinto, Evaristo de Macedo, Julinho Botelho, Ademir Queixada que foi artilheiro da Copa do Mundo de 1950, realizada no Brasil, oportunidade em que marcou 9 gols. Naquele ano o país vivenciou o “maracanaço”, por conta da derrota na final diante do Uruguai. Até aquele ano, apesar do bom futebol, o Brasil ainda não havia conseguido nada em termos de conquista mundial.

Seleção Brasileira 1958, ano do primeiro título mundial (Foto: Arquivo)

Então, chega a era Pelé. Os jogadores da Seleção Brasileira, atuavam todos no Brasil, inclusive Julinho Botelho e Mazola deixaram de ser convocados pelo fato de terem sido negociados com o futebol italiano. De forma sensacional a turma de Pelé, Garrincha, Nilton Santos e Didi, ganharam as copas de 1958 na Suécia e 1962 no Chile. Ainda com Pelé, em 1970, vem o Tri Campeonato e a posse definitiva da Taça Jules Rimet. Jairzinho fez 7 gols em 7 partidas, sendo 7 vitórias brasileiras. Segundo alguns, foi a melhor seleção de todos os tempos. Estava encerrado um período em que a força do nosso futebol era genuinamente brasileira, já que em 1974, jogadores como Luis Pereira, Leivinha, Marinho Chagas, Paulo Cesar Lima, Rivelino, Jairzinho e Dirceu, que eram titulares da seleção que disputou a Copa da Alemanha, já estavam sendo sondados por equipes do exterior, sendo que quase todos foram negociados após o fim da competição. Começava ali, uma caça aos principais jogadores brasileiros, principalmente por parte de equipes da Europa.

Seleção Brasileira, 1978, terceiro lugar na Argentina (Foto: Arquivo)

Em 1978, sob o comando técnico de Claudio Pêcego de Moraes Coutinho, a seleção brasileira, de forma invicta, ficou em terceiro lugar na Copa da Argentina. O técnico brasileiro, com algumas inovações táticas, fugindo um pouco da característica do nosso futebol, privilegiava mais a parte defensiva do que o ataque, por isso não perdeu nenhuma partida e foi eliminado pela Argentina exatamente pelo saldo de gols, que era o critério de desempate. Naquele ano, foi a última vez que a seleção brasileira disputou uma Copa do Mundo somente com jogadores que atuam no país.

Seleção Tri-campeã no México, considerada a melhor seleção de todos os tempos (Arquivo)

A história mostra que a seleção brasileira obteve mais sucesso em Copa do Mundo quando utilizou mais jogadores que atuam no país, do que quando privilegia os atletas que jogam em outros países. Naturalmente, não se trata de uma tese consolidada, pois, deve-se analisar outros fatores. Porém, não pode desconsiderar esse fato, já que os números são verdadeiros, na medida em que os três primeiros títulos da seleção, os jogadores todos atuavam no Brasil, sendo que em 1994 e 2002, nas conquistas do tetra e do penta, respectivamente, entre os convocados, a maioria atuava em clubes brasileiros.

Em 1982, a seleção encantou o mundo, mas caiu para a Itália (Arquivo)

Telê Santana nas Copas de 1982/86 fez convocações equilibradas, contemplando os que atuavam no país e os chamados “estrangeiros”; o mesmo fez Sebastião Lazaroni na copa de 1990. Mas, a seleção não obteve sucesso em nenhuma das três edições, embora deva-se enaltecer o grande futebol praticado pelo time de Telê Santana em 1982, com Valdir Perez, Leandro, Oscar, Luizinho e Junior; Cerezo, Falcão, Sócrates e Zico; Serginho Chulapa e Eder que encantou o mundo, mas não ganhou a Copa.

Brasil, tetra-campeão em 1994 nos EUA

Para se ter uma ideia dos 22 convocados que conquistaram o tetra campeonato em 1994 nos Estados Unidos, 11 atuavam no Brasil: Zeti, Cafu, Leonardo e Muller, todos do São Paulo. O Palmeiras mandou Mazinho e Zinho, sendo que do Flamengo e do Vasco da Gama foram convocados Gilmar e Ricardo Rocha, respectivamente. Ainda foram convocados Branco (Fluminense), Ronaldo Fenômeno (Cruzeiro) e Viola (Corinthians).

Dos mencionados, Leonardo foi titular até as oitavas de final, quando foi expulso diante dos Estados Unidos, entrando em seu lugar Branco que fez o gol brasileiro contra a Holanda, numa cobrança de falta sensacional, definindo o placar em 3 a 2 a nosso favor. Ricardo Rocha começou como titular, mas se contundiu na primeira partida. Zinho manteve-se como titular durante toda competição, além de Mazinho que terminou a competição como titular em substituição a Raí. Os jogadores convocados que atuavam no exterior foram Taffarel, Aldair, Márcio Santos, Ronaldão, Mauro Silva, Dunga, Jorginho, Raí, Bebeto, Romário e Paulo Sérgio.

Seleção do pentacampeonato, em 2002, venceu a Alemanha na final

No título do pentacampeonato, a seleção ficou um pouco mais brasileira, visto que, dos 23 convocados 13 atuavam no país. O Corinthians mandou 3: Dida, Vampeta e Ricardinho, com igual número do rival paulista o São Paulo mandou Rogério Ceni, Belleti e Kaká. Ainda foram convocados Anderson Polga e Luizão (Grêmio), Marcos (Palmeiras), Juninho Paulista (Flamengo), Gilberto Silva (Atlético-MG), Kleberson (Atlético-PR) e Edilson (Cruzeiro). Dos mencionados Marcos e Gilberto Silva foram titulares absolutos, Juninho Paulista foi titular nas duas primeiras partidas e Kleberson acabou ganhou a posição no decorrer da competição, além de Luisão que sofreu o pênalti na primeira partida contra a Turquia e que foi convertido por Rivaldo, fazendo Brasil 2 X 1 de virada num jogo difícil.

Os jogadores que atuavam no estrangeiro convocados em 2002 foram Cafu, Roberto Carlos, Juninho, Lucio, Roque Junior, Edmilson, Denílson, Ronaldinho Gaúcho, Rivaldo e Ronaldo Fenômeno. Naturalmente, a maioria destes foi titular, com um desempenho fantástico, a exemplo de Ronaldo Fenômeno e Rivaldo.

Estamos em 2020, já são passados 18 anos, até chegar a próxima Copa do Mundo serão 20. De lá para cá  a melhor colocação brasileira foi numa semifinal, quando o Brasil tomou 7 x 1 da Alemanha, jogando no estádio do Mineirão, uma vergonha tamanha, que fez a alma de Barbosa repousar em paz (goleiro da seleção brasileira considerado culpado pela derrota em 1950 quando o Brasil perdeu para o Uruguai no Maracanã). Com Parreira em 2006, Brasil foi eliminado pela França nas quartas de final. Dunga dirigiu o time em 2010 na África do Sul que também caiu nas quartas de final, perdendo para a Holanda. Nessas duas Copas a base do time veio do estrangeiro, com quase todos convocados.

Em 2014, no Brasil, a seleção sofreu sua derrota mais fragorosa na história das copas (Arquivo)

Em 2014, nem o fato de jogar em casa foi suficiente para o treinador Felipão contemplar os jogadores que atuavam no país – foram convocados apenas Victor e Jô do Atlético Mineiro, além de Fred do Fluminense, o único titular. Tite comandou o time em 2018 na Rússia, convocando Cássio do Corinthians para a reserva de Alisson, Geromel do Grêmio e Fagner foi convocado de última hora, assim mesmo porque Daniel Alves foi cortado por contusão.

Não trata-se de teoria, pois, a análise é baseada nos números, sobre os quais não restam dúvidas de que as conquistas históricas brasileiras, em se tratando de Copa do Mundo, tem uma intrínseca relação com a presença de mais jogadores que atuam no país, sem, contudo, desmerecer o talento e a importância dos que jogam lá fora.