Vaquejada em Barro Alto na Bahia traz de volta tradição do vaqueiro e da cultura popular

Por Uilson Viana – Jornalista DRT 0005198/BA

O nome “primeira vaquejada” tradicional é sugestivo e foi muito questionado. Na verdade não é todo dia que se ver numa festa de vaqueiro, um café da manha regado a rapadura, cuscuz, leite e requeijão. Foi isto que os vaqueiros encontram ao chegar na primeira Festa de vaquejada tradicional de Volta Grande de Barro Alto, realizada no último dia 02 de Junho de 2019.Um convite para ler a matéria toda é indispensável para entender o porque que estamos chamando a primeira vaquejada de tradicional.

As festas de vaquejada e a pega da novilha representam um forte símbolo da cultura sertaneja e buscam demonstrar e valorizar a saga do vaqueiro na labuta com o gado no mato e no seu cotidiano, além disto, é um momento de festa e reencontro destes novos e velhos homens destemidos e que marcaram e marcam até hoje significativa importância no cenario de crescimento econômico no meio rural.

O aboio, o berrante, a missa do vaqueiro são momentos de destaque e estimada atenção vivenciada e reverenciados pelos vaqueiros e seus admiradores. Mas tudo isto hoje está ameaçado pelo desenfreado crescimento de outros ritmos musicais e da forma que se generalizou de fazer festa, representada pelo chamado paredão ou som de porta mala. Aí, não se ver espaço para os verdadeiros donos da festa para entoarem seus aboios, suas crenças e rituais. Estes tipos de som são equipamentos de um novo momento da cultura popular que também precisam ser considerados como meios de acesso a um determinado tipo de “cultura de massa”, para tanto precisa ponderar e dá oportunidade para as outras formas que satisfaçam e valorizem os vaqueiros.

Além do som ligado em volume máximo, a maioria das músicas que são  tocadas não estão voltadas  para a cultura da vaquejada e além disto, muitas depreciam o respeito à família e a  mulher, principalmente. Relatos de vaqueiros renomados, como seu João de Zuca (85 anos), expressam o sentimento de insatisfação desta realidade, quando ele mesmo afirmou que não tem encontrado nas vaquejadas, um lugar saudável e sossegado para se divertir com os amigos e colegas de brincadeira.

Foi pensando neste cenário, que três filhos de aboiadores e de vaqueiros de Volta Grande (Uilson, Zé Domingos e Fabinho), estes últimos também vaqueiros, idealizaram a realização de uma vaquejada diferente e que resgatasse a cultura sertaneja do vaqueiro. Depois de um ano planejando e discutindo, a vaquejada aconteceu no dia 02 de junho e reuniu mais de 100 vaqueiros. Além das novidades já descritas, destacou como diferente das demais, a pega da novilha diferenciada para vaqueiros adultos e vaqueiros mirins, sendo que estes tiveram uma autorização assinada pelos seus pais.

A programação que iniciou logo cedo foi recheada de muitas surpresas para quem visitou o evento: a barraca do vaqueiro que trouxe a exposição de objetos e utensílios do seu dia-a-dia. Artigos de couro, vestimentas, produtos da agricultura familiar, demonstração do manejo da cultura do fumo e da feitura de caldo de cano, forma alguns destaques.

Logo na parte da manhã foi reservado um cantinho do vaqueiro, onde aconteceu ali o encontro de aboiadores renomados e de jovens e mirins. Foi o momento de entoar aboios, jogar versos e contar histórias da lida no mato, como relatou  seu Jonas (89 anos) , o vaqueiro mais velho e convidado para a festa. Além de outros, como Noé e o amansador de burro brabo Izidorio. Com destaque também para aboiadores mirins que deram seu recado. O desfile do vaqueiro até a igreja para receber a benção e adentrar o mato representou um momento onde mistura festa e religiosidade e a Fé cultuada pelo vaqueiro.

Para encerrar a festa, os participantes puderam se divertir ao som de muito  forró e vaquejada animada por duas bandas de forró da região que fizeram um som apropriado ao momento, agradando as mais de 2 mil pessoas que passaram por ali. Teve momentos de uso de carro de som, mas de forma em que respeitou a proposta da festa, pois  entendemos que o respeito e a valorização da cultura e da tradição popular local precisam dialogar com os diversos formatos, buscando relacionar e dialogar um com o outro sem tirar o mérito ao que lhe é caro ao vaqueiro, que é sua identidade, ancestralidade e cultura.