Por Carlos Laerte
Com a riqueza concentrada nas mãos de meia dúzia de famílias tradicionais, até o início dos anos 1990, Curaçá, no sertão baiano, é um exemplo vivo do município, que em menos de três décadas, inverteu o pêndulo do protagonismo econômico regional, substituindo as antigas elites por um empreendedorismo que diversifica as atividades produtivas, transforma pequenos negócios em grandes oportunidades e pessoas da ‘roça, os caatingueiros’ em empresários de sucesso.
Até consolidar uma trajetória empresarial, que inclui um patrimônio considerável de seis óticas nos municípios de Curaçá, Juazeiro, Sobradinho, Casa Nova, Lagoa Grande e Uauá, e mais inúmeros investimentos imobiliários na região, Lourdinha Pires trabalhou ainda como empregada em várias empresas, juntou as economias e com ajuda financeira da família montou sua primeira loja. Nem mesmo um acidente, que a deixou em uma cadeira de rodas, por oito meses, tirou o ânimo e a disposição de seguir em frente. “Este foi o tempo necessário para entender que o medo da morte aumenta a fé e que um empreendedor tem que ter objetivos claros e metas com prazos definidos”, ressaltou a vice-presidente da CDL – Câmara de Dirigentes Lojistas de Curaçá, que ocupou a presidência da entidade, entre os anos 2006 e 2012.
Determinação empreendedora
Seguindo o crescimento do município, com a chegada de investimentos em vários segmentos produtivos e a força da distribuição de renda que faz girar a economia, o pequeno empreendedor viu na grande procura por cimento uma outra oportunidade de negócios. Ai, por esse tempo, as atividades da fábrica que eram divididas com um irmão, deram lugar à contratação de sete funcionários. Com o aumento das vendas de cimento e o surgimento de novos clientes interessados em reformar e construir, Armando não teve outra saída senão inaugurar em 1998 a loja Armando Material de Construção.
Atualmente com 220 metros quadrados e a perspectiva de dobrar essa área até o próximo mês de dezembro, a loja do Armando emprega 12 funcionários e vai contratar mais gente ainda para receber os clientes em um moderno showroom, no padrão somente visto em grandes centros urbanos do país. Investindo forte também na aquisição de terrenos e construção de casas e apartamentos para alugar, o empresário contabiliza, nos últimos 12 anos, a entrega de 15 empreendimentos e tem mais 10 imóveis em fase de conclusão. E, completando o leque de atividades, Armando mantém ainda uma pequena frota de caminhões, fazendo o transporte de frutas e verduras para diversas partes do país. “Eu sempre acordei cedo e trabalhei com vontade, acreditando que o pequeno pode ser grande e ajudar a sua comunidade. Curaçá é nossa fonte de inspiração e tem espaço para todo mundo crescer junto”, pontuou.
Salgados e doces
Outro exemplo que veio da área de sequeiro, cresceu na adversidade e venceu na força de vontade é a empresária Edisiene Ferreira dos Santos. Aos 13 anos incompletos, ela chegou à cidade sem dinheiro, amigos importantes ou qualquer recurso. Trazia na mala apenas uma muda de roupa e os conhecimentos que aprendeu com a mãe na confecção de salgados e doces. Não demorou muito, e a menina catingueira e de sorriso fácil foi fazendo amigos por onde passava. Em qualquer rua, beco ou esquina de Curaçá, não havia um só morador que não conhecesse os pastéis, pãezinhos e as coxinhas de Edisiene. E para completar o sucesso do comércio de porta em porta, que contou com a colaboração do pai, ela fez um curso promovido pela prefeitura, aprendeu a fazer pizza, alugou um ponto na principal avenida da cidade e abriu seu primeiro empreendimento com direito a publicidade em carro de som.
A pizzaria logo caiu no gosto popular e o negócio, de vento em popa, virou uma unanimidade pela fartura dos pratos e a riqueza dos sabores: calabresa, frango e mussarela. Mas tinha um problema: o espaço era ínfimo para as pretensões de crescimento da pequena empresária que pensava alto. Então, Edisiene transformou o obstáculo em solução e colocou em prática o projeto há muito sonhado, apostando tudo na sua intuição. Depois de conseguir um empréstimo bancário, comprou um ponto de esquina na mesma avenida e deu início a um dos principais empreendimentos do segmento alimentício da cidade: a pizzaria Donna Ana & Grill. A empresa quando foi inaugurada, há oito anos, tinha seis funcionários e uma agenda de atendimentos que incluía serviços de buffet para aniversários, formaturas e casamentos. Hoje, com 10 colaboradores na folha e a contratação de diaristas em eventos especiais, o empreendimento se prepara para inaugurar, em dezembro próximo, o mais novo e completo espaço para festas da cidade, com o conforto e a sofisticação dos mais requintados buffets do país. Com a mesma simplicidade do início da história, a empresária conclui reafirmando que as conquistas são resultado da conjunção de esforços e do conjunto de arranjos que coloca na mesma balança fatores como a força de vontade, o foco nos objetivos, o crédito e a renda, imprescindíveis em todas as etapas do processo. “Tudo isso temperado com coragem, fé, criatividade e a alegria de viver em Curaçá, a terra onde os pequenos negócios trançados se transformam em empreendimento1s de grande repercussão coletiva”, frisou.
Ensolarado sertão
O administrador de empresas e gerente regional do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), Carlos Cointeiro, concorda com a afirmativa e acrescenta que o município hoje é uma referência estadual em empreendedorismo de pequenos negócios. “Celeiro de inúmeras iniciativas de desenvolvimento econômico e social, Curaçá vem dando provas de inclusão produtiva e sustentabilidade com histórias inspiradoras”, evidenciou. Cointeiro lembrou ainda, que o município busca constantemente ajuda de especialistas, além de reunir um bom capital humano e um razoável nível de inovação em um ambiente favorável aos negócios.
Boa parte do conjunto de elementos, a que se refere o gerente do Sebrae, está na própria infraestrutura urbana, nos atrativos naturais e manifestações culturais que atraem os olhares turísticos e movimentam a economia do município nesses tempos de retomada do crescimento pós epidemia da Covid – 19. Banhado pelo Rio São Francisco e agraciado com um poético pôr do sol em uma das ilhas mais bonitas do Vale, Curaçá recebe visitantes praticamente todos os meses do ano. É gente que vem saber um pouco mais sobre as ararinhas-azuis, conhecer a Missa do Vaqueiro, a Serenata, a Marujada, provar um vinho feito na terra ou simplesmente fazer uma foto em frente ao Teatro Raul Coelho e renovar a fé na romaria da gruta de Patamuté.
A comunhão e a integração desse acervo com a rede de comércio e de serviços, de onde evoluíram Lourdinha, Armando e Edisiene, fez surgir também talentos outros a exemplo de Vitor, um dos pioneiros na modalidade dos restaurantes de bode assado; Murilo, que escreveu seu nome no ramo automotivo e Bernardino, significativo expoente da rede hoteleira, postos de combustíveis e supermercado. Todos eles, oriundos do meio rural e mecanismos da mesma engrenagem que faz girar a economia a partir da distribuição de renda. Histórias de sucesso e superação, nascidas e amadurecidas sob o mesmo ensolarado sertão, e que hoje são exemplos de desenvolvimento e perseverança para as novas gerações.