Aprovada pelo Conselho Deliberativo, a venda de 90% do futebol cruzmaltino para a Almirante Participações prevê operação global de R$ 4 bilhões até 2030, quitação de passivos na Recuperação Judicial e novas travas de governança.

Após mais de dois anos de batalhas judiciais, arbitragem empresarial e o fantasma da insolvência, o Club de Regatas Vasco da Gama vive a maior inflexão societária de sua história. Na noite de 6 de outubro de 2026, o Conselho Deliberativo cruzmaltino aprovou, por ampla maioria (175 votos favoráveis contra 26 contrários e 3 abstenções), a venda de 90% das ações da nova SAF para a Almirante Participações e Empreendimentos S.A., holding comandada pelo empresário Marcos Faria Lamacchia — filho do fundador da Crefisa, José Roberto Lamacchia, e enteado de Leila Pereira, presidente do Palmeiras. A operação, avaliada globalmente em cerca de R$ 4 bilhões entre aportes diretos, quitação de passivos e cobertura de déficits operacionais até 2030, sepulta definitivamente a traumática passagem do fundo norte-americano 777 Partners pela Colina Histórica. O negócio aguarda agora o referendo final dos sócios em Assembleia Geral Extraordinária (AGE) e o cumprimento de condicionantes regulatórias junto à CBF.

O naufrágio da antiga SAF: a ilusão da 777 Partners

Quando o Vasco transferiu 70% de seu departamento de futebol para a norte-americana 777 Partners em setembro de 2022, por R$ 700 milhões em aportes e a assunção de até R$ 700 milhões em dívidas, a promessa era de modernização imediata e orçamento competitivo. Na prática, o modelo rapidamente expôs fragilidades graves de governança e liquidez. A gestão comandada por Josh Wander e Steven Pasko acumulou atrasos nos aportes anuais, transferências suspeitas entre empresas do mesmo conglomerado e falta de transparência na montagem do elenco. O estopim ocorreu no primeiro semestre de 2024, quando investigações jornalísticas e processos nos tribunais de Nova York revelaram um esquema de alavancagem fraudulenta da 777 Partners nos Estados Unidos. Despejada de escritórios em Miami e Londres, destituída do controle de clubes como Standard Liège (Bélgica), Genoa (Itália) e London Lions (Inglaterra), a empresa sofreu intervenção de sua principal credora, a seguradora A-Cap, e culminou em pedido de proteção contra falência (Chapter 11) na Justiça norte-americana. Diante do risco real de ver os ativos do Vasco penhorados no exterior para cobrir rombos da holding americana, o presidente do clube associativo, Pedrinho, protagonizou uma manobra jurídica audaciosa em maio de 2024: obteve liminar na Justiça do Rio de Janeiro suspendendo os direitos políticos da 777 e retomou o comando operacional do futebol. Em seguida, o clube ingressou em Recuperação Judicial (RJ) para estancar execuções trabalhistas e desenhou uma saída estruturada via criação de uma Unidade Produtiva Isolada (a chamada UPI Equity), mecanismo que permitiu leiloar o futebol sem que o novo investidor herdasse passivos ocultos da antiga controladora.

Linha do Tempo: Da era 777 à nova SAF

  • Setembro de 2022 — Venda original para a 777 Partners: Sob a gestão de Jorge Salgado, o Vasco aprova a venda de 70% da SAF para o grupo norte-americano por R$ 700 milhões em aportes prometidos e assunção de R$ 700 milhões em dívidas.
  • Maio de 2024 — Colapso global da 777 e liminar de Pedrinho: Após acusações de fraude financeira contra Josh Wander nos EUA, o presidente Pedrinho aciona a Justiça do Rio de Janeiro, suspende o contrato com a 777 Partners e retoma o controle do futebol.
  • 2025 a Agosto de 2026 — Recuperação Judicial e financiamento DIP: Para evitar penhoras e pedidos de falência por credores trabalhistas, o Vasco entra em Recuperação Judicial e estrutura um empréstimo-ponte (DIP) de R$ 150 milhões com a Almirante Participações.
  • 2 de setembro de 2026 — Acordo histórico na FGV: Vasco e 777 Carioca LLC assinam consenso na Câmara FGV de Mediação e Arbitragem (Procedimento nº 10/2024), encerrando litígios e liberando a criação da UPI para venda de 90% da nova SAF.
  • Setembro e Outubro de 2026 — Leilão e aprovação no Conselho: Em 25 de setembro, a Almirante Participações vence o leilão judicial da SAF. Em 6 de outubro, o Conselho Deliberativo aprova a venda de 90% das ações e a reforma estatutária do clube.

Raio-X do novo contrato: o que muda da 777 para a Almirante Participações

Diferentemente do modelo de multi-club ownership (rede global de clubes) alavancado por dívidas da 777 Partners, a proposta vencedora do leilão de 25 de setembro de 2026 apoia-se em capital nacional, com CNPJ no Brasil e aval pessoal do bilionário José Roberto Lamacchia, de 83 anos.
Critério Antiga SAF (777 Partners — 2022) Nova SAF (Almirante Participações — 2026)
Fatia Acionária Vendida 70% (30% com o clube associativo) 90% (10% com o clube associativo, sem diluição por aportes extras)
Valor Global da Operação Cerca de R$ 1,4 bilhão (R$ 700 mi em aportes + R$ 700 mi em dívidas) Estimado em R$ 4 bilhões até 2030
Aporte Direto no Futebol R$ 700 milhões parcelados entre 2022 e 2025 R$ 500 milhões (R$ 100 mi anuais + R$ 80 mi de quitação do empréstimo-ponte)
Infraestrutura (CT) Sem verba carimbada específica para construção integral R$ 150 milhões carimbados exclusivamente para CTs do profissional e da base
Cobertura de Déficit de Caixa Limitada ao fluxo próprio da SAF (gerou endividamento no curto prazo) R$ 1,5 bilhão (cobertura de déficit estimado em R$ 300 mi/ano por 5 anos)
Tratamento da Dívida Pagamento via fluxo da própria SAF Quitação de cerca de R$ 1,3 bilhão em dívidas concursais e extraconcursais via RJ
Uso de São Januário Cessão sem remuneração robusta de aluguel fixo Exclusividade até 2030 mediante pagamento de R$ 3 mi/ano (ou R$ 2 mi/ano durante obras)
Garantias de Execução Frágeis (holding estrangeira sem ativos executáveis no Brasil) 5 garantias judiciais, aval de José Lamacchia e procuração para execução direta contra sócios

Como a grande imprensa analisa o acordo e os pontos de tensão

A cobertura dos principais veículos de comunicação do país — Folha de S.Paulo, UOL, ge (Globo) e Portal Lance! — converge no diagnóstico de que o acordo salvou o Vasco de uma insolvência iminente, mas levanta debates importantes sobre governança esportiva e cláusulas contratuais:

1. O debate sobre conflito de interesses (Folha de S.Paulo e UOL)

A Agência Nacional de Regulação e Sustentabilidade do Futebol (Anresf), órgão de fair play da CBF, instaurou procedimento para avaliar o vínculo familiar entre Marcos Lamacchia e Leila Pereira. Como medida preventiva, a Anresf proibiu Vasco e Palmeiras de realizarem transações diretas de atletas entre si enquanto durar o mandato de Leila no clube paulista (dezembro de 2027).

2. A cláusula de lock-up e a brecha familiar (O Globo, ge e UOL)

A apuração de colunistas esportivos revelou que a Almirante Participações está proibida de revender os 90% da SAF a terceiros pelos próximos 10 anos. Contudo, o contrato autoriza a transferência das ações para outra empresa pertencente ao mesmo grupo econômico familiar. Nos bastidores, a cláusula é interpretada como uma porta aberta para que a própria Leila Pereira integre formalmente o comando da SAF cruzmaltina a partir de 2028, após encerrar seu ciclo no Palmeiras.

3. O alívio na Recuperação Judicial (UOL e Lance!)

Antes do leilão e da liberação do financiamento DIP de R$ 150 milhões (com parcelas de R$ 65 milhões e R$ 27 milhões antecipadas judicialmente), representantes de credores trabalhistas já cogitavam requerer a falência da SAF caso o negócio travasse. O consenso costurado na FGV com a 777 Carioca em 2 de setembro foi considerado o divisor de águas jurídico que blindou a operação.

4. Críticas da oposição interna (ge)

Durante a votação no Conselho Deliberativo, o presidente do Conselho de Beneméritos, Luís Manuel Fernandes, e alas da oposição criticaram o prazo de apenas sete dias para leitura do contrato definitivo e a ausência de uma cláusula automática de retomada das ações pelo clube associativo (como a que permitiu afastar a 777). A diretoria, representada por Pedrinho e por Alan Belaciano (presidente da Assembleia Geral), rebateu afirmando que, em vez de retomar um clube endividado, o novo contrato fornece uma procuração irrevogável para executar diretamente o patrimônio da holding e de seus sócios no Brasil caso qualquer aporte atrase.
Próximos capítulos: Com o aval do Conselho Deliberativo concluído, a mesa diretora convocará a Assembleia Geral Extraordinária (AGE) para que os sócios adimplentes dêem a palavra final nas urnas. Paralelamente, Marcos Lamacchia já solicitou a Pedrinho que seja candidato à reeleição na presidência associativa do Vasco no fim do ano, buscando manter a estabilidade política na transição para a temporada de 2027.

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