De pranchetas mágicas e cobranças de falta na gaveta a votações murchas no TSE: conheça os craques que trocaram o carinho das arquibancadas pelo choque de realidade do quociente partidário.
No futebol brasileiro, a lenda é conhecida: basta colocar a faixa de campeão no peito, beijar o escudo do clube do coração e acenar para a torcida para garantir que um milhão de devotos sigam você até o fim do mundo. Na teoria, isso deveria se traduzir automaticamente em uma cadeira acarpetada em Brasília ou em uma câmara municipal. Na prática, a cabine de votação é um esporte completamente diferente, onde não existe passe açucarado, juiz caseiro ou gol de mão no último minuto.
Quando o apito final do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) soa às 17h do domingo de eleição, muitos ídolos históricos descobrem que o mesmo torcedor que chora no estádio é capaz de ignorar o número do ídolo com uma frieza digna de zagueiro brucutu. Confira a ficha técnica dos craques que brilharam nos gramados, mas acabaram goleados pelas urnas eletrônicas.
Vanderlei Luxemburgo: O “poxojeito” que não engrenou no cerrado
-
Onde foi rei: Dono de um dos currículos mais vitoriosos da história do país. Empilhou taças pelo Palmeiras da era Parmalat (bicampeão brasileiro em 1993/94 e multicampeão paulista), Corinthians (Brasileirão de 1998), Santos (Brasileirão de 2004), Cruzeiro (a lendária Tríplice Coroa de 2003 com Mineiro, Copa do Brasil e Brasileirão), além da Copa América de 1999 pela Seleção Brasileira e passagens galácticas pelo Real Madrid.
-
A dura realidade das urnas:
-
Ano: 2026
-
Cargo disputado: Senador por Tocantins
-
Legenda: Podemos (PODE)
-
Votação oficial: 67.987 votos (4,11% dos votos válidos)
-
Desfecho: Não eleito (terminou em 6º lugar na corrida pelas duas vagas)
-
Depois de décadas gesticulando de terno caríssimo à beira do gramado e desenhando táticas complexas em sua prancheta, o “Profexô” decidiu aplicar a dialética do medo nos adversários políticos do Tocantins. A estratégia para o Senado, contudo, encontrou um eleitorado que não comprou o projeto. Luxa descobriu que a famosa distância entre o campo e a tribuna parlamentar não se encurta no grito e amargou uma modesta sexta colocação, provando que o cerrado não perdoa retranca eleitoral.
Marcelinho Carioca: O recordista mundial da suplência
-
Onde foi rei: Um dos maiores ídolos da centenária história do Corinthians. O “Pé de Anjo” foi maestro nas conquistas do Mundial de Clubes da FIFA (2000), do bicampeonato brasileiro (1998 e 1999), da Copa do Brasil (1995) e de quatro Campeonatos Paulistas, além de passagens vitoriosas por Flamengo e Vasco.
-
A via-crúcis no TSE (uma maratona de frustrações):
-
2010 (Deputado Federal – SP | PSB): 62.399 votos (não eleito / suplente)
-
2012 (Vereador – SP | PSB): 19.729 votos (não eleito / suplente)
-
2014 (Deputado Estadual – SP | PT): 43.694 votos (não eleito / suplente)
-
2016 (Vereador – SP | PRB): 12.602 votos (não eleito / suplente)
-
2018 (Deputado Estadual – SP | Podemos): 28.487 votos (não eleito / suplente)
-
2020 (Vereador – SP | PSL): 7.574 votos (não eleito / suplente)
-
Se houvesse um troféu de perseverança cívica, o Pé de Anjo já estaria com a taça definitiva na sala de troféus. Marcelinho colocava a bola na gaveta a 35 metros de distância, mas, na urna, a curva sempre vai para fora. Transitando por quase todo o espectro ideológico partidário em busca de coeficiente favorável, o ex-camisa 7 colecionou seis derrotas consecutivas em São Paulo. Em 2020, o tombo foi ainda mais evidente: obteve menos de 8 mil votos em uma capital com quase 9 milhões de eleitores aptos.
Joel Santana: O inglês diplomático não comoveu o Rio
-
Onde foi rei: Personagem folclórico e multicampeão carioca pelos quatro grandes clubes do Rio de Janeiro — Flamengo, Vasco, Fluminense e Botafogo —, além de títulos inesquecíveis pelo Bahia e um comando emblemático na Seleção da África do Sul.
-
A dura realidade das urnas:
-
Ano: 2022
-
Cargo disputado: Deputado Federal pelo Rio de Janeiro
-
Legenda: PROS
-
Votação oficial: 2.184 votos (0,03% dos votos válidos)
-
Desfecho: Não eleito
-
O homem da prancheta amarela e das tiradas em inglês (“you listen, they play very fast“) apostou que seu carisma infinito nas redes sociais se converteria em passaporte para a Câmara dos Deputados. O resultado foi um autêntico nó tático do eleitor fluminense: com míseros 2.184 votos no estado inteiro, Joel não conseguiu lotar nem a arquibancada do Estádio da Rua Bariri. O povo riu dos comerciais, compartilhou os vídeos no WhatsApp, mas na hora do “confirma” aplicou uma marcação individual implacável no treinador.
Vampeta: Das cambalhotas no Planalto à porta fechada do Congresso
-
Onde foi rei: Pentacampeão do Mundo com a Seleção Brasileira em 2002, símbolo da raça corinthiana no bicampeonato brasileiro (1998/1999) e no Mundial de Clubes (2000), com passagens marcantes por Fluminense e PSV Eindhoven.
-
A dura realidade das urnas:
-
Ano: 2010
-
Cargo disputado: Deputado Federal por São Paulo
-
Legenda: PTB
-
Votação oficial: 15.300 votos
-
Desfecho: Não eleito
-
Vampeta protagonizou um dos momentos mais antológicos da história política brasileira em 2002, quando desceu a rampa do Palácio do Planalto dando cambalhotas com a camisa da Seleção na frente de Fernando Henrique Cardoso. Oito anos depois, resolveu voltar a Brasília por vias formais. Faltou combinar com o eleitor paulista: seus 15.300 votos não deram nem para o cheiro em um estado com dezenas de milhões de eleitores. Ficou demonstrado que a malandragem e a resenha de boteco garantem audiência no rádio, mas não furam a barreira do quociente eleitoral.
Dinei: O talismã que virou vela eleitoral
-
Onde foi rei: O maior amuleto da história do Corinthians. O atacante era famoso por entrar incendiando partidas no segundo tempo e detém a marca histórica de ser tricampeão brasileiro pelo clube (1990, 1998 e 1999).
-
A dura realidade das urnas (derretimento paulatino em São Paulo):
-
2012 (Vereador | PDT): 9.243 votos (não eleito)
-
2016 (Vereador | PMB): 4.417 votos (não eleito)
-
2020 (Vereador | Republicanos): 2.956 votos (não eleito)
-
2026 (Deputado | Avante): 6.338 votos (não eleito)
-
Dinei transferiu sua especialidade de substituto para a vida pública: virou suplente profissional. O problema é que, ao contrário dos gramados onde ele entrava aos 30 minutos para virar o jogo, nas urnas paulistanas o placar murchou a cada tentativa. De mais de 9 mil votos em 2012, caiu progressivamente até o piso de 2.956 em 2020. O eterno amuleto da Fiel descobriu que, na cabine eleitoral, o eleitor não perdoa nem quem tem três faixas nacionais no peito.
Edmundo “Animal”: A fúria vascaína contida na cabine
-
Onde foi rei: Dono de um dos maiores auges individuais do futebol moderno no Campeonato Brasileiro de 1997 pelo Vasco da Gama (artilheiro com 29 gols e atuações de gala), além de ídolo do Palmeiras no timaço bicampeão brasileiro de 1993 e 1994.
-
A dura realidade das urnas:
-
Ano: 2026
-
Cargo disputado: Deputado Federal pelo Rio de Janeiro
-
Legenda: PSDB
-
Votação oficial: 35.725 votos (cerca de 0,40% dos votos válidos)
-
Desfecho: Não eleito / suplente
-
Famoso pelo temperamento explosivo e pelo talento refinado que colocava medo em qualquer linha de quatro zagueiros, Edmundo tentou transformar a reverência da colina histórica de São Januário em assento na Câmara dos Deputados. Conseguiu 35.725 votos — número que encheria um clássico no Maracanã, mas que no tabuleiro da política carioca acabou sendo insuficiente para obter a titularidade. Ficou no banco de reservas do Congresso, mostrando que até mesmo para o “Animal” as regras do jogo partidário são indomáveis.
